O e-commerce do Boticário deve crescer 45%. Mas a notícia mais importante não é essa.
O crescimento do digital chama atenção. Mas o sinal mais relevante está na integração entre loja física, e-commerce, estoque e comportamento de compra.
Uma notícia recente sobre o desempenho esperado pelo Boticário para o Dia dos Pais traz um número que chama atenção: a marca projeta crescimento de 45% nas vendas pelo e-commerce em relação ao mesmo período de 2025. Mas talvez o percentual não seja a informação mais importante dessa história.
A notícia não é que o digital ganhou da loja física. É que essa disputa deixou de fazer sentido.
O ponto não é digital versus físico
Durante muitos anos, empresas trataram loja física e e-commerce quase como operações concorrentes.
Quanto vende a loja? Quanto vende o site? Qual canal performa melhor?
Essas perguntas continuam sendo importantes para a gestão. O problema aparece quando elas passam a determinar também a forma como enxergamos o consumidor.
O consumidor não organiza sua jornada de compra de acordo com o organograma da empresa.
Ele pode descobrir um produto no Instagram, pesquisar a marca no Google, visitar o e-commerce, consultar avaliações, verificar preço, passar em uma loja física, voltar para o celular, comparar condições de pagamento e finalmente decidir onde concluir a compra.
Ou fazer exatamente o caminho inverso.
É por isso que o movimento observado no Boticário é relevante para empresas muito além do setor de cosméticos.
Uma marca com enorme presença física continua ampliando o papel do comércio eletrônico dentro de sua estratégia porque digital e físico são partes de uma mesma experiência de compra.
Omnichannel não é simplesmente estar em vários canais
Existe uma diferença importante entre ser multicanal e construir uma operação verdadeiramente omnichannel.
Ter loja física, e-commerce, WhatsApp, marketplace e redes sociais significa estar presente em vários canais.
Omnicanalidade exige algo além disso: fazer com que esses pontos de contato funcionem como partes de uma mesma jornada.
Preço, estoque, comunicação, atendimento, logística, retirada, troca e informação sobre o produto precisam conversar entre si.
Quando isso acontece, o consumidor deixa de perceber canais separados.
Ele percebe apenas a marca.
O consumidor não é mais físico ou digital. Ele simplesmente compra.
O digital influencia vendas que nunca aparecem como vendas digitais
Existe outra consequência importante dessa mudança.
Uma estratégia digital não pode mais ser analisada somente pela quantidade de pedidos registrados no e-commerce.
O digital pode participar da descoberta, da pesquisa, da comparação, da formação de preferência e da decisão de compra mesmo quando a transação termina no caixa de uma loja física.
Uma campanha pode gerar interesse. O consumidor pode pesquisar a marca, navegar pelos produtos, consultar preços e descobrir a localização da loja.
Se depois disso ele realizar a compra presencialmente, o sistema provavelmente registrará uma venda física.
Mas boa parte daquela decisão aconteceu antes — e aconteceu online.
A discussão para varejistas e fabricantes mudou
Por isso, talvez a pergunta já não devesse ser:
“Vale a pena investir no digital se boa parte das minhas vendas acontece no físico?”
A pergunta mais relevante é outra:
Quanto da decisão que leva o consumidor até sua loja já aconteceu no ambiente digital?
Essa mudança de perspectiva parece pequena, mas altera completamente a estratégia.
Um site desatualizado, um catálogo difícil de navegar, produtos mal descritos, fotos ruins, informações divergentes entre canais ou uma marca praticamente inexistente nas buscas não prejudicam somente o e-commerce.
Podem prejudicar toda a jornada de compra.
E isso vale também para fabricantes que ainda concentram suas vendas em distribuidores, representantes ou varejistas.
Mesmo que a venda final aconteça por um intermediário, é cada vez mais provável que o consumidor tenha pesquisado o produto, comparado alternativas e criado uma percepção sobre a marca antes de chegar ao ponto de venda.
Talvez a fronteira esteja desaparecendo
Os 45% projetados de crescimento do e-commerce do Boticário são um dado relevante.
Mas o sinal mais interessante está por trás do número.
O mercado está deixando de operar em uma lógica na qual loja física e digital representam universos independentes.
Existe um único consumidor circulando continuamente entre busca, conteúdo, site, redes sociais, atendimento, loja, marketplace e diferentes formas de entrega.
Para as marcas, a oportunidade está justamente em reduzir o atrito entre esses pontos.
A pergunta deixou de ser onde o consumidor compra. A pergunta é por quantos pontos de contato sua marca passa antes que ele decida comprar.
Este Radar foi desenvolvido a partir dos dados e movimentos apresentados pela Cosmetics Online sobre a estratégia do Boticário para o Dia dos Pais de 2026.
Ler a matéria original na Cosmetics Online →Curadoria de movimentos, tendências e sinais que impactam marcas, varejo e negócios digitais — com uma leitura aplicada à estratégia, operação e crescimento.